3 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 4

A INCONFORMAÇÃO

“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA, 2E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. 3PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VERÊDAS.” MATEUS 3:1-2

“2E NÃO SEDE CONFORMADOS COM ESTE MUNDO, MAS SEDE TRANSFORMADOS PELA RENOVAÇÃO DO VOSSO ENTENDIMENTO, PARA QUE EXPERIMENTEIS QUAL SEJA A BOA, AGRADÁVEL, E PERFEITA VONTADE DE DEUS.” ROMANOS 12:2

Se você já assistiu algum filme sobre a vida de Jesus, ou pelo menos o início, com certeza já deve ter notado que João Batista é aquele personagem austero, de jeito um tanto rude, pouca conversa, severo, e o mais importante, inconformado. Esta é a parte mais importante. Porque não se sai de um ponto de carência e se entra em um território de abundância, como Jesus disse ("Eu vim para que tenha vida e a tenham em abundância"), sem passar pelos terrenos da inconformação.

Não há como. Então, a inconformação é um componente altamente positivo. Podemos até dizer mais, ela é fundamental, propõe a melhoria do ser, sem a qual não existe crescimento. Corresponde à área de intermediação entre um estado de carência que sugere necessidade e um estado melhor com base no suprimento.

A inconformação é necessária. Representa fator positivo e impulsionador para o nosso crescimento. Seu papel é de indutor, de impulsão do próprio mecanismo evolucional.

Inconformação significa a falta de conformação ou de resignação. É a não aceitação de um estado, circunstância ou situação. Denota contrariedade. Chega para nos falar de uma dificuldade e tem a finalidade de nos projetar para novas bases, para novas faixas, novos patamares. Sem medo de errar, podemos afirmar com toda a certeza que João Batista é esse inconformado que grita dentro da gente. 

Porque no fundo nós estamos aqui por causa da inconformação. Concorda? Estamos inconformados com o sistema de vida que estamos levando. Estamos aqui porque estamos inconformados com a maneira que estamos vivendo, inconformados com a forma como estamos interagindo com a vida, inconformados com a resposta que estamos recebendo. Então, sempre existe uma inconformação íntima que dita a mudança.

O evangelho está chegando para quem está saturado, para aquela criatura que já se encontra acentuadamente cansada de palmilhar territórios que estão perfeitamente superáveis pela sua individualidade. E não tem jeito, quem está matriculado no plano do crescimento espiritual, no firme propósito de melhoria e aperfeiçoamento, não pode ficar conformado com si próprio. Ele tem sempre que estar buscando alguma coisa, pois é esse buscar alguma coisa que define a linha que se estende e motiva a faixa operacional dele. Isto é muito importante de se ter em conta.

E que fique claro o seguinte: quando eu falo que ele não pode estar conformado com ele próprio eu não estou levantando a tese do inconformismo. Entendeu? Eu estou me referindo ao sentido de não estagnar, de não parar, não acomodar, de seguir em frente. E não se assuste, a vida é para os inconformados. Pelo menos a melhor parte dela.

Não tem como alguém manter no rosto um sorriso de satisfação em cima de uma coisa que está estagnada. Isso é uma grande verdade. Todo aquele que se encontra satisfeito no sentido de pronto, acabou, cheguei, está estagnado na evolução.

Nós estamos estudando o evangelho porque estamos inconformados, mas precisamos ficar atentos a uma questão. Quando esse processo de inconformação é trabalhado em conformidade com as leis superiores, nós crescemos. Saímos dela na busca de um padrão melhor e evoluímos. Seguimos em frente, progredindo, evoluindo, crescendo. Isto tem que ficar muito claro. Quer dizer, a inconformação tem que fazer o seu papel no mecanismo de progresso, que consiste exatamente em despertar a nossa disposição e nos lançar adiante.

Nós temos que passar por ela e avançarmos. Não podemos nos estancar nela. 

Ela não pode, em hipótese alguma, tomar conta da nossa estrutura íntima, não pode mandar no nosso eu. É por isto que é preciso um certo cuidado para que as posições transitórias não paralisem os vôos da alma. É fundamental saber distinguir uma inconformação positiva, que tem um sentido bastante sutil, de uma outra inconformação totalmente negativa, que apresenta na intimidade a característica de revolta ou resistência.

A inconformação, quando ela apresenta sentido positivo, se dá de forma bastante sutil. Mas se ela surge e nós não avançamos, não tomamos medidas para o progresso e nos colocamos na posição de inconformados com a vida que estamos levando, inconformados com as dificuldades e problemas, se vamos dando campo a ela no sentido de que "está tudo ruim, eu não aguento a minha família" ou coisas do tipo, daqui a pouco nós estamos revoltados. Percebeu? Se eu começar a lançar a inconformação no plano diário das manifestações, eu me torno uma pessoa difícil.

Ou seja, a inconformação surge, mostra os ângulos do superconsciente, convocando-me para alguma coisa, mas o meu ego fica resistindo. 

E vale ressaltar que ficar inconformado é diferente de estar debaixo de um plano de rebeldia. Aquela inconformação complicada, como sinônimo de rebeldia, é um tremendo desastre para qualquer indivíduo. Ela joga a criatura para baixo.

Tem pessoa que é muito inconformada. Está trabalhando, mas queria estar na praia. Foi pra praia, reclama que o calor está demais. Voltou da praia, reclama que o salário está baixo. Aumentou o salário, o problema é o chefe. O chefe mudou, reclama do colega. Não tem gente assim? Muda de religião, muda de mulher, muda de marido. Muda disso, muda daquilo, muda de casa. Muda para os Estados Unidos, volta para cá. E fica assim. Ela vive com a inconformação dentro de si. Tudo é motivo.

É duro viver com uma pessoa inconformada. Tem que ter muita paciência. Porque ninguém aguenta. Ela é um poço de reclamação e chatice. Está sempre irritada. Chora e esquenta a cabeça de qualquer um.

Aliás, grande parte dos desajustes de ordem psicológica, daquelas doenças catalogadas ao nível das chamadas psicopatias, são decorrentes de uma inconformação embutida. Você já pensou nisso? O elemento não pode fazer aquilo que queria, deter aquilo que desejava, operar com aquilo que ele gostaria. Olha para ele e não se percebe nada. No plano ético e social parece até estar tranquilo, pode não manifestar nada negativamente. Exteriormente ele está uma beleza, ele aparenta estar perfeitamente conformado com a sua realidade, todavia, lá na intimidade pode ter um vulcão em erupção, pode haver um componente fortíssimo de intranquilidade chamado inconformação de profundidade.

E eu não estou exagerando, a inconformação tem estado presente e tem sido um dos fatores mais ameaçadores na estabilidade de vida de muita gente. A questão surge muitas vezes de maneira velada. A criatura nem sempre manifesta esse procedimento com ostensividade. Esse padrão não é identificado de forma nítida, com claridade. Para se ter ideia, geralmente a pessoa não fala em inconformação. Ela fala "não me conformo". 

Ela não fala em inconformação, fala "eu não me conformo", para não perder essa linha do conformar. Geralmente diz assim: "Eu vivo bem. Aguento as paradas, mas não me conformo. Não me conformo com esse trabalho, não me conformo com um filho assim, não me conformo com esse problema da família, eu não me conformo com isso, não me conformo com aquilo...", e vai seguindo um rosário.

É por isto, meu amigo, minha amiga, que nós precisamos abrir o coração. Operar com tranquilidade os recursos que dispomos e tentar desbloquear essas tomadas difíceis, negativas. Saber identificar o que podemos e o que não podemos ainda. Saber o que podemos operar, o que nos é lícito, bem como o que é conveniente para nós e o que não é bom para nós. Temos que aprender a desativar a inconformação que muitas vezes mantemos, acabar com as ondas que estão revoltando o terreno ambiente e nos colocando em situações conflitantes e nebulosas.

Uma grande virtude nossa passa a crescer na proporção em que nós vamos sabendo operar os instrumentos e os recursos, identificando com tranquilidade onde podemos chegar e onde não devemos chegar. E isso significa algo valioso: maturidade.

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