17 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 6

O DESERTO

“E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA.” MATEUS 3:1

Em seu aspecto espiritual, o deserto define para nós aquela área desprovida de edificação. É aquele terreno seco e com sentido de aridez que existe no interior de cada um de nós.

Ambiente que já não corresponde aos anseios mais íntimos que alguém cultivava. Ele surge e a criatura nele se identifica quando descobre que o que pensava ser a sua segurança vai acabar ou está sendo destruído, pois observa em redor e percebe que aquilo está acabando, aquilo já não tem mais substância mantenedora de vida.

Todos os sofrimentos são passagens nossas pelo deserto. E não há como buscar frutos dentro do deserto, não se pode buscar no deserto porque nele não há nada plantado.

Sempre que alguém sai de um contingente de valores, de reflexos e de interesses de sua vida, ele entra num deserto. Vamos gravar uma coisa com atenção: todas as vezes que a gente entra em um processo de transição, essa transição para quem quer mudar é deserto. O que é transição? É mudança de um estado para outro. Define um momento de novas edificações, é como se novos elementos pudessem emergir para novas posturas e posições no contexto do aprendizado.

Esse é o sistema evolucional. A transição mostra o outro lado, o outro ângulo, é mudança de um estado para outro. Estamos todos em uma fase de mudanças e o deserto é onde começa o mecanismo. Temos que ter a paciência indispensável para saber vivenciar esse momento de transição, que é um momento acentuadamente desconfortável. Toda transição é desconfortável, é o que está jogado na confusão.

É por isso que todo ângulo nosso para frente é deserto. Onde se situa o indivíduo é o terreno da sua segurança pessoal. Onde ele está é o seu habitat, é a área da sua construção, é algo sólido, tangível, concreto, seguro, e ele se sente à vontade com o que acontece ali. Mas quando ele investe para além ele nada tem, nada possui, nada pode, porque do outro lado é deserto. Deu uma ideia?

A visão do outro lado, a visão da frente, é uma visão esperançosa, porém é visão de deserto, porque não se está acostumado com isso. Para além é sempre deserto para quem estava do outro lado.

É por isso que é difícil mudar, é por isso que é difícil crescer. Mudar é entrar no deserto e entrar no deserto é se lançar num lugar que não se tem experiência. Muita coisa que nós ficamos pensando em fazer, laborar e levar adiante já nos incomoda diante do campo de nossa vida, já nos incomoda no plano mental de agora.

Tem gente que quer mudar alguma coisa e quando olha do outro lado não tem nada, é tudo diferente. A praia dele é onde ele está, o conforto e a segurança dele é do lado de cá. E por causa dessa dificuldade natural da mudança, quando começamos a jornada para conseguir nos firmar em uma nova posição é comum nós sermos visitados por vários temores. Como não é fácil mudar muitos ficam sem saber se devem ou não investir. Aliás, muitos optam por ficar onde estão mesmo, preferem ficar a vida toda desse lado de cá e abrem mão do investimento. Percebeu? Existe muita dificuldade em mudar, porque o negócio do outro lado é muito sério.

O resultado é que a ascensão não é tão fácil como parece. Para ser sincero, não tem nada de fácil.

Mas também não é tão complexa que vamos largar para lá e deixar de investir. De forma alguma. A verdade é que para se entrar no deserto é preciso pelo menos grande senso de coragem. Nesse deserto precisamos ter o cuidado e o equilíbrio a fim de valorizarmos a experiência com amor e paciência, porque é por aí que nós vamos dar os grandes passos trabalhando a nossa própria redenção.

O deserto define o ponto e aquele momento de acentuado desconforto e solidão. 

Até entrar nele vivemos muito bem assentados no mundo que elegemos, mas no deserto a gente perde a estabilidade, perde a segurança com que agimos, perde de certa forma o domínio do campo. Geralmente, nós sentimos uma necessidade grande de estar praticamente cem por cento do tempo envolvidos pelos outros, achamos que vamos ser aplaudidos pelos outros nessa nova área, porém no deserto passamos a ser criaturas completamente desconhecidas no contexto.

É assim mesmo. Podemos estar cercados por muita gente, vivendo numa cidade enorme, todavia passamos a ser grandes desconhecidos nesse terreno novo que se abre. 

O importante é não ficarmos tristes quando vivermos esse lance.

Todo mundo passa por um processo dessa ordem. Jesus, antes de começar o seu ministério, foi para o deserto e ficou lá quarenta dias. Paulo, quando recebeu o chamado na estrada de Damasco, o que aconteceu com ele? Você lembra? Ele ficou sozinho. E ficou perdido. E tanto ficou perdido que ele foi para o deserto, foi para lá e ficou três anos com Áquila e Prisca. Ficou criando condições e forças para alcançar as legítimas metas.

O deserto é onde qualquer estruturação em bases novas tem que se fundamentar. E não tem como ser diferente, no alcance aos objetivos mais altos da evolução é necessário o trânsito e a superação das intempéries desse ambiente difícil. É condição imperiosa para o verdadeiro progresso saber estar só. Quem não passar pelo processo da solidão não progride. Não se chega a Jesus sem passar por esse deserto. Para adquirirmos o equilíbrio e a segurança necessários nós estamos, cada um a seu tempo, passando por todos esses transtornos. Para quê? Para entendermos o semelhante no grande futuro, para aprendermos como ajudar e trabalhar com ele quando estivermos no campo do amor.

Sendo assim, não se entristeça quando você estiver vivendo essa fase de isolamento.

A vida traz momentos assim para o nosso engrandecimento. Quem estiver num deserto em determinadas facetas da vida, mantenha a calma e procure encontrar caminhos. Sabe porquê? Porque tem uma indicativa no meio disto. Quando nos encontramos só, aparentemente perdidos, tem algo a ser revelado. E isso não sou eu que estou falando, é da lei. Há algo a ser revelado. Não tem quem não passe por momentos desses na grande proposta de crescimento consciente.

São lances da própria vida. O que acontece é que em geral não mantemos a paciência e o equilíbrio indispensáveis de busca dentro dessa solidão e costumamos apelar para o desespero, o que faz a situação se enovelar, às vezes, por longo tempo.

Vamos ter calma. Em quantas situações, quando nos achamos tristes e sozinhos, não indagamos "meu Deus, porque está acontecendo isso comigo? porque é que eu estou tão só?". E não demora muito tempo a resposta naturalmente surge. Aí nos chega o evangelho com um painel amplo de medidas. De onde podemos concluir que a solidão na sua legitimidade não existe, o que existe é uma pseudo-solidão para que sintamos dentro de nós o amparo divino.

O deserto é o campo que se abre ao ser para que ele edifique uma nova mentalidade de vida e busque operar em novas bases. Ele aparece no momento em que a consciência se desperta e enxerga que algo existe para além da lei, do que lhe é cobrado. O deserto representa o plano que você vai ter que trabalhar.

João Batista visualiza que tudo o que se aprende tem que ser operado, porque o deserto é um espaço que precisa ser construído. Nós temos que trabalhar o deserto e fazê-lo produzir. Na hora que a individualidade descobre que algo existe para além da lei, em termos de amor, ela se coloca no deserto e é dentro do deserto que ela vai ter que edificar um novo padrão. O compromisso passa a ser a entrada em uma nova proposta. No deserto não existem construções e o que opera a construção, o que sedimenta a conquista, é o quê? É a ação, não a proposta.

Deu uma ideia? Nós estamos lidando com o evangelho e evangelho não é o edifício de redenção das almas? Pois então, edifício sugere construção. Tantas vezes é preciso fertilizar o deserto, fazê-lo produzir. O deserto é lugar árido que pode ser trabalhado, que pode ser fertilizado, mais ao nível da mente. Alguém, entre outras coisas, se identifica no deserto quando descobre um caminho novo a palmilhar.

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