20 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 7

O REMORSO

Existe um determinismo divino que estabelece a evolução no universo. E criatura humana alguma consegue fugir à lei, tampouco fugir à consciência de si mesma, onde Deus escreveu os seus soberanos códigos.

Quando a individualidade envereda por situações menos felizes no campo moral, seguindo em linha contrária aos preceitos que o seu campo mental já aponta, e desvirtuando-se de um contexto aplicativo no qual já deveria estar nele, é como se ela tentasse recalcitrar dando passos diferentes aos que deveria estar dando. Daí, o que misericórdia do criador faz? Passa a agir para que o despertar dessa individualidade se faça em cima de um processo que se inicia com o remorso.

O remorso nós vamos entendê-lo como sendo o aspecto inicial de uma trilogia da redenção.

Vigora uma linha natural de remorso, arrependimento e reparação definindo uma proposta e sequência de fatos que determinam a projeção nossa para novas escalas, onde o remorso é a etapa inicial. Após a falta cometida, cedo ou tarde dá-se um processo que se inicia com o remorso. Percebeu? O início da ativação íntima da mudança começa pelo remorso. O remorso é o componente geratriz que antecede e prepara o arrependimento e o arrependimento é a energia ou força anterior à reparação.

O sentimento de culpa tem machucado muita gente, não tem? O sentimento de culpa é um grande fantasma na vida de muita gente por aí. Tem gente sofrendo demais porque está debaixo disto. O indivíduo entende que não devia ter feito aquilo que fez, ele assume que o seu ato foi inadequado e admite a culpa, identifica a sua culpa. Fica instituída uma culpa. E ao admitir a culpa ele parte para o processo de fixação da culpa que é o remorso. Ficou claro?

E surge o remorso.

O mundo está cheio de gente vivendo com remorso. Para ser ter ideia, muitas dificuldades das pessoas no campo do desajuste na área psíquica, na área mental, muitos pontos em que tantas pessoas estão aí tentando solucioná-los ao nível de psicoterapias ou coisa parecida, realizando até tratamentos com o uso de medicamentos, vigora em cima disto o remorso corroendo a criatura. O remorso apresenta múltiplas manifestações e tem a sua base no sentimento de culpa, iniciado lá atrás quando a pessoa fugiu ao dever que lhe competia. Tanto que ao avaliar com profundidade a questão, o grau de entristecimento varia de acordo com o que aconteceu na linha alimentícia das causas.

O remorso consiste na inquietação da consciência, originada pela culpa ou pelo crime cometido.

Em torno dessa inquietação a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em um circuito fechado sobre si mesma, aprisionando o campo mental às faixas inferiores da retaguarda. É como se fosse um disco de música arranhado em que, não conseguindo avançar para a etapa seguinte se mantém retido naquela mesma repetição. Para resumir, o remorso funciona como uma prisão sem grades. Isso mesmo, uma prisão íntima edificada pela culpa.

A criatura não consegue fugir. E sabe porquê? Porque a consciência pessoal não libera culpado algum sem a conveniente regularização do delito.

Nos círculos carnais, tanto quanto nas esferas espirituais, a paisagem real do espírito não é outra senão a do campo interior. E cada qual vive com as criações mais íntimas de sua alma. A morte, naquela concepção antiga que a gente trazia lá do passado de forma errônea, como sendo uma coisa definitiva, de que "morreu, acabou, nada existe mais" já era. Isso é coisa ultrapassada.

Os infratores, no corpo físico ou fora dele, permanecem algemados às consequências de suas ações. 

Mesmo com a possibilidade de poder ausentar-se da paisagem do crime o pensamento do infrator se mantém preso ao ambiente e à própria substância da falta cometida. Você sabia disso? A gente não tem como fugir da gente. A gente pode fugir dos ambientes físicos, mas da gente mesmo, da nossa própria consciência, não tem como. Ninguém, preste atenção, ninguém foge da consciência culpada e os sofredores levam consigo, onde forem, o estigma dos erros deliberados a que se entregaram.

Você conhece aquela expressão muito usada no meio policial que diz que "o criminoso sempre volta ao local do crime?" É por aí. O criminoso, por mais que tente, não consegue fugir da justiça universal, porque carrega o crime cometido em qualquer parte. 

E a consciência culpada nunca esquece. Sem contar que toda dívida tem sempre os fantasmas da cobrança. Então, vamos repetir, porque isto é importante: a consciência pessoal não libera culpado algum sem a conveniente regularização do delito e a culpa somente desaparece quando se liberta aqueles que lhe sofreram o mal. Não raras vezes o doloroso inferno íntimo constitui a aflitiva condenação.

O remorso é uma posição puramente mental, não é? Sem maiores ressonâncias.

Pense bem, por ser uma prisão, embora sem grades, a criatura não consegue fugir. E é um estado estático, um intervalo embaraçoso, onde a individualidade se mantém em circuito fechado. E ele não ocorre à toa, significa a constatação da queda. E tem uma finalidade. Afinal, ficar centrado nele apenas complica a dificuldade. 

Quem cria a complicação tem, por si mesmo, que descomplicar. Está entendendo? Essa é a matemática da vida. É necessário que o agente assimile ideias novas com as quais passe a trabalhar, ainda que vagarosamente, melhorando a sua visão interior e estruturando um novo destino. A renovação mental é a renovação da vida e não existe regeneração de fora sem regeneração de dentro.

O estacionamento não resolve problema algum, da mesma forma que a fuga estimulada pelo remorso não auxilia quem quer que seja na solução das suas dívidas. 

Em outras palavras, o remorso é a força ou energia que prepara o arrependimento. Ao cair em remorso a criatura já começa a laborar um processo de arrependimento. E o arrependimento, por sua vez, define a visualização do reerguimento, constitui o estágio que antecede o esforço regenerador.

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