2 de jun de 2016

Cap 57 - A Espada de Jesus - Parte 1

O DESAFIO DA PAZ

“CHEGADA, POIS, A TARDE DAQUELE DIA, O PRIMEIRO DA SEMANA, E CERRADAS AS PORTAS ONDE OS DISCÍPULOS, COM MEDO DOS JUDEUS, SE TINHAM AJUNTADO, CHEGOU JESUS, E PÔS-SE NO MEIO, E DISSE-LHES: PAZ SEJA CONVOSCO.” JOÃO 20:19

“NÃO CUIDEIS QUE VIM TRAZER A PAZ À TERRA; NÃO VIM TRAZER PAZ, MAS ESPADA;” MATEUS 10:34

“COMBATI O BOM COMBATE, ACABEI A CARREIRA, GUARDEI A FÉ.” II TIMÓTEO 4:7

Qual é a maior busca de todos os seres humanos em todos os tempos? Você já pensou nisso? Acho que nem é preciso pensar muito para responder. Quase não há dúvida: é a paz.

As aspirações da alma são sempre as mesmas em toda parte e a esperança de atingir a paz divina, com felicidade inalterável, vibra no íntimo das pessoas. O anseio por esse reconforto não tem tamanho e entra século, sai século, a procura se intensifica.

A paz é algo fundamental em nossa caminhada, mas tão fundamental que, por ocasião do nascimento de Jesus na manjedoura, vozes celestiais, após o louvor aos céus, expressaram votos de paz à Terra. E após a sua ressurreição, quando voltou de forma gloriosa ao convívio daqueles a quem tanto amara, antes de traçar qualquer plano de trabalho o mestre disse aos discípulos espantados após pôr-se no meio deles: "paz seja convosco".

O fato é que em muitas ocasiões a paz não é encontrada em sua forma legítima, com aquele preenchimento feliz na intimidade. São muitos os indivíduos que vez por outra perguntam a si mesmos onde buscar esse espírito de alma. Questionam sobre onde encontrar a ambicionada paz espiritual que, às vezes, não conseguiram encontrar em décadas de existência no campo terrestre. As noites chegam e vez por outra meditam sobre onde encontrar os supremos interesses da vida.

Ninguém consegue entrar na cabeça das pessoas, mas quantos companheiros chegam à idade madura levando no coração, ainda, os mesmos sonhos e as mesmas aspirações que nutriam quando eram mais jovens? Quantos não chegam à maturidade carregando títulos e cargos de prestígio nos círculos sociais? Exercem atividades de vulto nas mais diversas esferas do cotidiano, tomando, inclusive, decisões, no campo de suas atividades, que influenciam diretamente a vida de muita gente. Isso não acontece? Decidem o destino de muitos, no entanto levam a vida sem entusiasmo, sem alegria, como se desertos lhes povoassem a alma. Frequentam igrejas, frequentam núcleos espirituais, todavia continuam sentindo no íntimo uma sede de fraternidade com os homens e uma intraduzível fome de conhecimento.

Quando interpelados, dão ótimos conselhos acerca de normas elevadas de conduta pessoal. Opinam sobre os mais diversos assuntos, mas não conseguem esclarecer a si próprios. Transitam nos mais diversos ambientes, porém sentem como se estivessem exaustos, cansados, dilacerados e oprimidos.

"Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada." (Mateus 10:34)

Estas são palavras de Jesus. E grande número de pessoas se inquietam ante esta afirmativa dele. Na visão dessas pessoas parece que o texto se apresenta contraditório. Alguns chegam a dizer que nesse ponto há algo errado nas escrituras. Afinal de contas, Jesus não veio trazer a paz? E se ele não traz a paz, quem é que traz então? O assunto vai longe e questionamentos dessa ordem ficam no ar.

Isso porque desde que o mundo é mundo os homens permanecem em busca dos prazeres e das satisfações generalizadas, e todos aguardavam a vinda do Cristo trazendo paz à terra, óbvio, mas trazendo sabe que tipo de paz? Uma paz pronta, definida, pré-fabricada, sem ônus algum. Uma paz que não exigisse nada das pessoas, nenhuma atitude além das simples aceitação. Uma paz de graça.

Fazer o quê? Isso ocorre porque o conceito de paz entre os homens sempre foi muito viciado.

Na mentalidade acomodatícia em que vivem, os homens continuam sonhando com uma felicidade conquistada sem esforço. A paz desejada consiste na sensação de bem estar do corpo físico, sem dor alguma. É uma paz que define a ociosidade do espírito. Na expressão comum, ter paz significa ter atingido certas garantias exteriores dentro das quais o corpo possa vegetar sem cuidados.

Funda-se em circunstâncias exteriores e resulta do jogo de determinados fatores que existem fora de nós mesmos. Quase sempre culmina com o descanso dos cadáveres a se dissociarem na inércia. Em suma, essa paz que o mundo oferta é de natureza instável, efêmera, incerta. Quem a tem não se sente seguro de sua posse, vive inquieto, sobressaltado, apreensivo. Afinal, ela está quase sempre na dependência de influências imprevisíveis. Quer dizer, quem a desfruta em certo momento em outro pode estar sujeito a perdê-la. A paz do mundo não assegura tranquilidade real. É uma paz fictícia, irreal, temporária. Uma paz vinda de fora, sem segurança íntima, à mercê de fatores externos.

O anseio por esse sentimento íntimo é imenso, só que o filho de Maria define que não veio trazer paz. Percebeu? As pessoas querem paz e ele não traz paz, traz espada. Daí, muitos não entendem como Jesus, o governador espiritual do planeta e príncipe da paz, pode oferecer uma proposta de paz fundamentada na violência, porque pelo que a gente sabe espada é instrumento de luta. E isso significa o quê? Que ele não veio trazer a paz da forma como nós gostaríamos. Ele não veio trazê-la da maneira como imaginamos, não a trouxe sob o caráter esperado.

Se os homens se baseiam numa paz que é ociosidade do espírito, o cordeiro divino de forma alguma poderia endossar uma tranquilidade dessa natureza. Por isso, é fundamental não confundir a paz do mundo com a paz de Jesus. A paz que o mundo acena é uma ilusão e a que ele nos promete é uma realidade.

Está acompanhando? Jesus não veio traz a paz ao mundo exterior. Ele não veio oferecer uma proposta de paz inerte, preguiçosa, de ordem parasitária ou beatífica.

A paz que ele dá o mundo não dá. A sua paz é uma paz que não é indolência do corpo, mas saúde e alegria do espírito. É uma paz permanente, que se estrutura sobre a rocha inabalável da fé consciente. Tem suas raízes arraigadas nas profundezas da alma, razão pela qual se mantém constante e segura, independente das circunstâncias exteriores. Nos prepara para suportar os acontecimentos mais diversos com ânimo sereno e com a consciência tranquila, não permite jamais que o nosso coração se turbe e nem se atemorize.

Em contraposição ao falso princípio considerado no mundo, Jesus não trouxe uma paz pronta, trouxe os meios para cada um obtê-la no íntimo. Porque não tem paz recebida de graça. A harmonia não é uma realização que se improvise.

Não vamos nos esquecer, tudo na vida tem um preço. O Cristo não veio trazer a tranquilidade imediata para nós, porque a paz decorre das condições íntimas de cada um. Ela precisa ser cultivada, trabalhada, elaborada. Não é causa, é efeito. É por nossa conta. Não é outorgada de fora para dentro, mas conquista de cada um.

Não existe mudança sem luta, só existe paz em cima da guerra. Logo, Jesus trouxe o mecanismo para a luta que aperfeiçoa, burila, regenera. Veio trazer o componente que deflagra a guerra, porque a paz tem seu preço coberto pela luta, pelo esforço e pela reeducação. Ele mesmo foi o primeiro a inaugurar o testemunho pelos sacrifícios supremos. Nosso desafio é a luta íntima. O evangelho chega e cria uma luta dentro da gente. E a paz se principia nessa luta interior.

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé" (II Timóteo 4:7) Estas palavras são do apóstolo Paulo, porque nas lutas da evolução existe combate e bom combate, e não são a mesma coisa. No combate nós visamos os inimigos externos, erguemos armas, criamos emboscadas, usamos a astúcia. Nele, muitas vezes saboreamos a derrota dos adversários entre alegrias falsas, ignorando que no fundo estamos é dilapidando a nós mesmos. O combate mantém o nosso coração preso ao pó da terra em aflitivos processos de reajuste na lei de causa e efeito, que a gente conhece bem.

Jesus, por sua vez, veio instalar o bom combate. Veio trazer o combate da ascensão numa luta sem sangue, destinada à iluminação do caminho humano. Uma luta travada na própria intimidade contra os inimigos internos da nossa paz e felicidade. Sem o uso de fuzis ou canhões, mas tão necessária que a paz só é capaz de surgir em decorrência dela.

De uma forma ou de outra, para quem se predispõe a seguir o evangelho chega sempre o momento de se travar essa guerra de redenção espiritual, única capaz de libertar o espírito para a elevação aos planos superiores da vida.

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