4 de nov de 2016

Cap 58 - Como Estudar o Evangelho (2ª edição) - Parte 12 (Final)

A LETRA E O ESPÍRITO

“O QUAL NOS FEZ TAMBÉM CAPAZES DE SER MINISTROS DE UM NOVO TESTAMENTO, NÃO DA LETRA, MAS DO ESPÍRITO; PORQUE A LETRA MATA E O ESPÍRITO VIVIFICA.” CORÍNTIOS II 3:6

Para entender o evangelho, que constitui o alimento das almas, vamos pegar o exemplo da natureza.

Repare para você ver, as frutas quase sempre são envolvidas por uma camada protetora que é a casca. Certo? E essa casca, que é o envoltório externo, serve para quê? Para conservar a essência do que ela envolve, ou seja, para conservar doce e saborosa a polpa dos frutos, preservando-a das contingências exteriores a que se acha exposta.

O que a gente percebe disso? Que se a natureza não tivesse protegido dessa forma os frutos desde o princípio o homem jamais chegaria a utilizar-se deles. Deu uma ideia? Daí, é possível termos uma vaga ideia do trabalho desenvolvido pela espiritualidade ao longo dos séculos para preservar a mensagem espiritual.

E nos dias de hoje, ante uma infinidade de acontecimentos que nos chegam, nós ainda costumamos receber muitas coisas em bloco, de uma forma compactada, sintetizada. E com a nossa inaptidão e insensatez é muito comum a gente não ter a paciência necessária para poder descompactar e metabolizar todo esse conteúdo que nos chega. Está percebendo? Assim, tem muitas pessoas que desprezam o espírito que vivifica e ficam restritos apenas à letra que mata.

Em outras palavras, comem qualquer fruta com a casca. E o que é pior, ainda procuram convencer os outros, e muitas vezes conseguem, de que é assim que devem comê-la. Infelizmente, essa é a grande verdade. A grande massa de pessoas ingere o material didático como se fosse o conteúdo, a essência. Comem sem mastigar.

E por insistirem em comer qualquer fruta com a casca, não experimentam a legítima essência dos ensinamentos, tão cheios de vitalidade, sabedoria, encantamento e profundidade.

A letra, sem dúvida alguma, é instrumento que pode criar dificuldades aos nossos passos. Estreitas interpretações do plano divino obscurecem muitos horizontes mentais. Por esta razão, todas as vezes que levamos o assunto para o plano literal nós costumamos ter problemas. E equívocos na interpretação muitas vezes ocorrem por tomar-se ao pé da letra expressões que são figuradas.

O maior percentual de pessoas é cristã. Isso é ótimo. É uma maravilha, porém essa maioria não estuda o evangelho, estuda a letra do evangelho. E a bíblia simplesmente não pode ser trabalhada em cima da letra como muita gente propõe.

Na atualidade, vigora a necessidade de uma evangelização não mais sob a pregação sistemática milenar de um evangelho periférico trabalhado só na base da letra. 

Repare o que acontece em nosso mundo escolar hoje. Nos primeiros movimentos da educação infantil, como a coisa funciona? Os educadores precisam utilizar-se da colaboração de figuras e desenhos. Para que a criança inicie o despertar dos primeiros conhecimentos, o processo tem que ser assim. Então, figuras são usadas. E não são poucas figuras. São muitas. E dentro de um plano de analogia, vamos depreender que aquele que quiser estudar as escrituras em cima da periferia da letra vai trabalhar contra a própria natureza. Porque a gente sabe bem: a didática é uma coisa e o conteúdo é outra.

A letra é material didático, não é a essência do conhecimento. Repetindo: a letra bíblica é material didático sem o qual não há aprendizado, mas ela não é a essência do conhecimento.

É preciso entender que toda a transcrição, tanto do velho como do novo testamento, é instrumento didático. A letra é um recurso didático por meio do qual a sabedoria de Jesus nos ensina a aprofundar no conteúdo. Porque simplesmente não há como transmitir grandes verdades fora dos elementos de natureza metafórica ou simbólica. Está acompanhando? Com os ensinamentos do evangelho, que contém verdades essenciais, o processo é o mesmo dos frutos, isto é, tem que sair do periférico e buscar a essência. E se a sabedoria do maior instrutor e guia da humanidade não tivesse envolvido seus sublimes ensinamentos no manto dos símbolos e parábolas, com certeza não teriam chegado até nós.

Em muitas ocasiões, Jesus fechava os seus discursos com a frase "quem tem ouvidos de ouvir, ouça".

Não era assim? Com isso, ele sugeria que quem fosse capaz de penetrar que buscasse o sentido essencial de suas palavras, porque o seu ensinamento não se encontra na letra que mata, e sim no espírito que vivifica. O resultado é um só: que em todas as traduções dos ensinamentos divinos a gente se lembre sempre de separar a letra do espírito, buscando a essência para além da letra que a transporta.

Tem muita gente que alega que o uso de simbologia e de parábolas gera confusão e dificulta a aprendizagem da verdade.

Fazer o quê? É assim e sempre foi assim. O que é que nós podemos dizer? O que nos vem à mente é uma coisa muito simples: praticamente não existe fruto sem casca. Concorda? E você vê alguém reclamar de ter que descascar a fruta para poder se alimentar? Não. Ninguém reclama. Afinal de contas, o trabalho de descascar é bastante recompensado pelo proveito que se obtém com o alimento, portador de nutrientes essenciais à vida do corpo. Todo mundo concorda com a necessidade de um pequeno esforço para isso. E se para saborearmos os frutos temos que nos despojar dos seus envoltórios, para acessarmos as verdades maiores nada mais justo do que despojarmos da letra que as envolvem.

Preste atenção em uma coisa interessante. Tem gente que vai fazer uma palestra ou uma pregação sobre o evangelho e utiliza recursos. Não que isso seja um problema, de forma alguma. O que estou me referindo é uma outra coisa. 

Ela faz um poema para começar, utiliza desenhos, leva gravuras belíssimas. A cada período de tempo uma música bonita envolve as pessoas. É uma beleza. Se o assunto é a pesca maravilhosa, por exemplo, ela começa falando da paisagem. Fala dos peixes, descreve os barcos, se emociona ao falar de Simão Pedro. Fica tudo muito bonito. No final, muita gente emocionada até bate palma: "Nossa, mas que lindo. Como fala bem!" Tudo muito bonito. Com um único detalhe, ficou apenas na periferia do assunto. Entendeu? Foi muito bonito, falou bonito, só que de conteúdo e aprendizado que é bom, nada. Não teve nenhum. Isso, sem contar que se questionar o orador, se alguém da platéia apertar um pouquinho, e nem precisa ser muito, não sai nada.

Jesus não transmitiu nenhuma lição ao acaso. No evangelho tudo tem uma razão de ser. Todas as expressões contidas nele apresentam uma história viva entre nós. Todo ato do divino mestre e todo símbolo tem significação. Nada é superficial.

O mestre serviu-se da forma empregando-a para designar pensamentos transcendentes, dos quais a forma, em si mesma, não pode dar uma ideia precisa e clara. Isso é para ficar bem guardado. O que estamos falando aqui é muito mais importante do que parece. Nós temos que procurar dentro do material didático a mensagem que ele trouxe, porque atrás de cada simbologia que o texto apresenta sempre encontramos as mensagens de que precisamos. Outro detalhe: não sabemos o que podemos tirar ou colocar no evangelho, o que importa é que se está contido nele nós temos que encontrar alguma coisa positiva.

O que estamos falando é muito bonito. Quem tem estudado tem notado que dentro da letra está embutida a essencialidade. O evangelho é uma mensagem direcionada ao espírito, certo? Todo ele. A linguagem de Jesus é toda espiritual. É roteiro das almas, e por ser roteiro das almas é com a visão espiritual que deve ser lido.

Isso é critério básico de estudo e interpretação do evangelho de Nosso Senhor Jesus.

Daí, o grande lance é a gente saber analisar as partes básicas que o evangelho abre para nós. Está entendendo? Pense para você ver, evangelho está repleto de símbolos e temos que compreender o símbolo e dele tirar a ressonância para a nossa caminhada de vida. Saber tirar o espírito da letra e situar-se na mensagem, no tempo e no espaço. Não tem outra, nós temos que ir além da forma. Saber utilizar a letra, que é a vestimenta da linguagem, e buscar o espírito.

Toda a parte de fora do evangelho é a letra e o que estamos fazendo é ver o que tem dentro da letra. 

O estudo visa retirar a essência das reentrâncias da letra, pois somente a essência, o valor espiritual intrínseco, é capaz de nos fazer penetrar a mente e o coração de Jesus. É por isto que interpretar é pegar a letra e ver o que tem lá dentro. Continuamente temos que nos lembrar de buscar o conteúdo espiritual, porque é este que dá vida, universalidade e eternidade. Então, a dica é esta: quem quiser entender o evangelho de Jesus deve buscar sempre o sentido dos ensinamentos sob o prisma puramente espiritual.

Se a gente analisar bem, o evangelho é simples na sua essência. E para compreendermos a essência lá no fundo da letra, vai depender inicialmente da nossa simplicidade e do nosso carinho. É preciso buscar na intimidade da letra o que Jesus quis apresentar, o que ele quis de fato nos ensinar. E vale mais um lembrete interessante: não vamos deixar que o conhecimento novo que nós temos alcançado, e que ás vezes falta aí fora para a grande maioria das pessoas, em tempo algum venha criar em nós algum tipo de presunção. De forma alguma.

Sejamos sempre simples, solícitos, fraternos, integrativos, humildes e alegres. A vida, entre outras coisas, gosta de gente humilde e bem humorada. Agindo assim ela com certeza continuará nos abençoando com novos e maiores entendimentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...