5 de ago de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 8

CARIDADE PERIFÉRICA 2

Pode acontecer da pessoa passar grande parte da sua vida servindo e ajudando, aqui e ali, no entanto, sem alterações íntimas. Ela trabalhou muito no campo exterior, chega no fim da encarnação com a contabilidade em dia e diz: "Na minha vida eu abri o coração e doei. Fiz mais de quinhentas campanhas de doação e doei para muitos necessitados". Não pode acontecer?
           
Só que tem um detalhe: não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dele a muito tempo. Não utilizou a luz da religião para efetivar o clareamento do próprio coração.
                                              
Quer dizer, ele ajudou, com certeza fez amigos, mas não melhorou a sua condição íntima. Às vezes, até pelo contrário, está cheio de resistência no passado dele. No fundo, todas as lutas por que passou não lhe modificaram a personalidade. Ele continua sendo o mesmo indivíduo por anos. Com as mesmas trevas, as mesmas dificuldades, as mesmas complicações, as mesmas emoções desvairadas.
                                                          
Isso sem contar aqueles que não se modificam e ainda justificam a ausência de mudança: "Não tem jeito. Eu sou assim mesmo. Não vou mudar. Eu nasci assim e vou morrer assim". 

Fazer o que, não é?! Esses não se abrem para mudar para melhor. Não se esforçam no testemunho das mudanças. Não raras vezes, a mesma pessoa que vai chegar no plano espiritual, quando do desencarne, é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Vai voltar pra lá com a mesma luzinha íntima que chegou aqui.

Então, nós precisamos ficar atentos. Se fizermos muito lá fora e pouco dentro de nós mesmos, no sentido de melhoria, é claro que vai haver um resultado positivo. Isso é óbvio. Mas de que natureza? Ganhamos amigos, mas continuamos tateando. Continuamos às escuras. Assim, pode acontecer do indivíduo ter feito muitos amigos na doação de pão para os necessitados, mas não ter feito luz em seu interior, o que, aliás, é o desafio que nós estamos tentando entender e apropriar aqui.

E olha que nem mencionamos que tem muita gente operando em termos de caridade por aí e que é verdadeiro verdugo dentro de casa. Não tem? Eu disse em casa, mas esse "em casa" pode ser estendido a outros ambientes também. Acho que todo mundo conhece pessoas assim. O elemento complica demais. A sua presença já chega a pesar negativamente no ambiente.

Complica na administração do dinheiro, complica no ambiente familiar, complica no trabalho, no campo social. Complica aqui, complica ali, complica não sei onde, e no final das contas ainda leva a virtude de ter dado o pão para o necessitado e ter sido uma pessoa caridosa.

Pense comigo, não adianta a pessoa distribuir um caminhão de cesta básica e ficar indisposto com aquele que está ajudando a descarregar o caminhão. Adianta? Ou, então, fazer uma distribuição no natal e durante a distribuição ficar falando palavrão, ficar de cara fechada, reclamando com um, reclamando com outro, brigando com os meninos. O que você acha? Dessa forma, com essa maneira endurecida, ele enche o estômago dos outros, mas não vibra com o que faz. 

E não chega a alcançar o plano de harmonia e euforia íntima. Quer dizer, a sua mente pode estar voltada ao campo da cooperação, da ajuda, mas o seu plano educacional passa longe de um atestado de melhoria, deixa muito a desejar.

Nas relações sociais, o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna. Faz parte do movimento de trocas no organismo da vida. De forma que a caridade começa em cima da esmola. Nós sabemos que os instrumentos materiais não são os valores de sustentação finalística (pois caridade é a vibração de amor que circula), todavia funcionam como elementos canalizadores. E é por aí o grande começo. Afinal de contas, quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

E ao abordar esse assunto é preciso cuidado para não achar que quem está fazendo esse trabalho externo não está correto ou está simplesmente perdendo o seu tempo. A gente também não pode dizer que não exista mérito nessas atividades. De forma alguma. Existe mérito sim. A bem da verdade, elas são instrumentos operacionais que condicionam a nossa tendência à solidariedade e ao amor que nós temos que ter. 

Vamos tentar clarear isto. Veja bem, se eu noto que não tenho sensibilidade para dar um passe, por exemplo, ou de atender ao necessitado na carência ou fome que ele apresenta, seja ela de qualquer natureza, ao sair de casa e ir à campanha em que estou engajado eu começo a me adestrar, gradativamente, ao campo da solidariedade. Deu para acompanhar?

Nós estamos ainda tão distantes dessa capacidade de sensibilização no nosso dia a dia que temos que mergulhar nas atividades externas. Temos que participar de algumas duas ou três vezes por semana, temos que evangelizar, participar ali, participar aqui. Percebeu? Ir trabalhando o nosso amor dentro de parâmetros restritos, marcados, circunscritos, de forma a irmos criando condições condicionáveis de bem e de amor. Então, não está errado não. Nós necessitamos dessas atividades.

É preciso ter em conta essa questão. Se formos analisar bem, o que a esmola faz? A esmola trabalha a intimidade do ser. Razão pela qual as obras da caridade material só alcançam a feição divina quando proporcionam a espiritualização do cooperador, renovando-lhe os valores íntimos. De forma que a prática do bem exterior é ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior.

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